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"Caso enterrado", dizia Angel Dark, sempre, no fim de cada história. Eu, por minha vez, sempre achei essa frase um péssimo trocadilho, e o disse várias vezes ao Bobo, mas ele insistia, dizia que era o bordão final do personagem. E morria de rir, e vivia dizendo "caso enterrado" a respeito de qualquer coisa: de um namoro rompido, de um argumento finalizado, de uma conversa incômoda, de um vôo perdido, de um cigarro apagado, de um cinzeiro quebrado.


- Veja, Toco, a frase é genial, genial! Vale pra suplantar uma impossibilidade, vale pra recortar uma possibilidade, vale até pra se livrar de uma incerteza - justificava, ou tentava justificar, naquela filosofia de boteco que sacava do bolso de tempos em tempos.


E a cada uma das mais de cinquenta histórias que desenhei com ele, o último balão dizia sempre "Caso enterrado". João, uma vez, quando tinha uns dez anos, me disse: "Vô, por que você não botava logo esse balão no Ilustrator e ia só copiando e colando?". Talvez porque não existissem ainda programas gráficos naquela época. Talvez porque não existisse ainda computador. Foi a resposta que dei.


- Não existia computador? Mas, então...


A pausa pensativa de João me dizia que aí vinha coisa...


- ...então como é que se acessava a internet?


A existência precede a essência? Não pro João, acho. E, como dizia Angel Dark, "caso enterrado".



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