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Casa do Politécnico

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Histórico

Na década de 40, sentindo falta de um espaço para os estudantes carentes, a comunidade politécnica, representada pelo Grêmio Politécnico, reinvidicou um espaço de moradia para seus alunos. Diante da movimentação estudantil, a prefeitura doou o terreno e uma parte do dinheiro necessário para a construção da Casa do Politécnico (conhecida atualmente como CadoPô), o resto do dinheiro foi doado pela Escola, politécnicos, e empresas. A Casa foi planejada e construída na década de 50, sendo inaugurada em 1957. Ela contava com: 5 andares para moradia; um andar para Bar (com mezanino superior), aonde ocorriam o famoso "Baile da Poli"; e ainda com um outro Bar no piso térreo, que também tinha entrada exclusiva e direta para a Escola Politécnica (atualmente prédio da FATEC).

A Casa é de uma importância histórico-cultural única tanto para a comunidade Politécnica, como para a Paulistana, e até para a Brasileira. Ela foi palco de diversas atividades culturais, organizadas por politécnicos, como por exemplo: o "Grupo Kuatro de Cinema"; o Jornal Literário; o jornal "O Politécnico", na década de 60 conhecido como "Jornal Vermelho", que chegou a ter distribuição em bancas de jornal; o Grupo de Teatro da Poli (GTP); a "Roda de Samba"; a "Chacrinha"; dentre outras atividades.

Em 1963 foi sede da movimentação que colocou José Serra (atual governador do Estado de São Paulo) na presidência da União Estadual dos Estudantes (UEE). Após o Golpe Militar de 1964, A Casa passou a servir de refúgio da resistência contra o governo militar. Muitos politécnicos tiveram que abandonar o curso e, algum tempo depois fugir do país, inclusive o próprio José Serra, presidente da UEE. Neste período, a Escola Politécnica completava sua mudança para o Campus da USP, situado no Butantã, e com essa mudança a casa passou a aceitar alunos dos diversos cursos da USP. A maior parte da movimentação política era concentrada no sétimo andar, em função disso, o mesmo passou a ser conhecido como "Andar Vermelho".

Na década de 70 A Casa começou a entrar em desuso em virtude da distância do Campus da USP e da dificuldade de transporte, em função disso, por volta dos anos 80 ela começou a ser habitada por pessoas sem ligação nenhuma com a USP, ou com o Grêmio Politécnico, até que, em 1994, o Grêmio conseguiu a Reintegração de Posso, junto à Prefeitura de São Paulo.

Desde então diversos projetos tentaram ser implantados. Em 2003 iniciou-se um projeto de ocupação da casa pelo Escritório Piloto do Grêmio, que perdura até hoje, no qual alguns grupos de teatro se utilizam do espaço da Casa para realizar seus ensaios, dentre eles o GTP.

Em 2006 a Prefeitura iniciou o processo de desapropriação da casa, acusando utilidade pública, para a expansão do arquivo histórico municipal, mas a Casa ainda percente ao Grêmio Politécnico (2007).

Atualizando:

Após diversas tentativas de conversa com a Prefeitura e uma reunião entre o Grêmio e a Prefeitura em 2007, o processo de desapropriação teve continuação e se efetivou. Em 2008 a prefeitura tomou posse efetiva do edifício. Até o fim de 2008 o valor referente à indenização da desapropriação ainda não havia sido pago ao Grêmio Politécnico. O valor estimado era de R$1.1 mi, mas as gestões 2007/2008 optaram por questionar este valor que, segundo um laudo independente poderia ser de, pelo menos, R$1.5mi.


Texto por: Diego Rabatone Oliveira

Histórias sobre a CadoPô

Estas histórias foram coletadas da Internet e/ou relatos de moradores, estou (Diego) entrando em contato com os autores para conseguir autorização e colocá-las no site oficial do Grêmio.

1 - Os famigerados “bolinhos Lavoisier”

Lembro-me de alguns episódios do tempo de faculdade associados à época em que morei numa república, a Casa do Politécnico, situada no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. Em rigor, lugar em que tive de morar após a ditadura ter expulsado os estudantes (eu incluso), em 1968, do Conjunto Residencial da USP - o famoso Crusp.

A Casa do Politécnico foi construída, de 1951 a 1956, por iniciativa de antigos alunos, quando a Poli funcionava integralmente onde hoje é a Fatec. O nosso amigo eng. Lourival Maffei foi um dos membros da comissão de construção, e consta que o prédio de 8 andares foi projetado pelo famoso arquiteto Vilanova Artigas.

Na minha época, a maioria dos moradores cursava Engenharia Civil porque fomos “os premiados”. O nosso curso foi o único que, por um bom tempo, teve parte das disciplinas ministradas na antiga Poli e as demais na Cidade Universitária. Éramos, por isso, usuários cativos dos ônibus da CMTC em viagens épicas e intermináveis. Felizmente, num tempo em que a cidade era segura e o respeito às pessoas ainda existia. Podíamos fazer coisas hoje inconcebíveis, como, por exemplo, atravessar o Jardim da Luz de madrugada! Infelizmente, com a transferência total da Poli para a Cidade Universitária, o prédio da Casa acabou sendo invadido e foi se arruinando. Deteriorou-se de tal forma que acabou sendo interditado. Hoje está sendo objeto de estudos para o que se fazer naquele local. Uma das possibilidades é um centro cultural.

O fato é que, bem próximo à Casa, dispúnhamos do Bar do Português, na esquina da Rua Afonso Penna com a Rua Três Rios. É naquele boteco que freqüentemente comíamos os famosos “bolinhos Lavoisier”.

Esse era o denominativo que usávamos para associá-los ao tal chavão: “Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Uma máxima do famoso químico francês Antoine Lavoisier, cuja pronúncia em francês é algo como “antoane lavoasiê”. Isso mesmo, “lavoasiê”, entendível para os que, como eu, foram agraciados no ginásio com aulas de francês. Hoje em dia parece que até a língua portuguesa foi eliminada do currículo escolar.

Inferíamos com aquela designação que a gororoba que comíamos era resultante da transformação de algum resto de comida, na melhor das hipóteses do dia anterior. Fazer o quê? A fome nos era bem superior aos inexistentes pruridos gastronômicos daquela época. O designativo, pelo menos, tinha alguma relação com a famosa culinária francesa... E, pensando nesses fatos, sinto hoje o quanto nos fez falta não termos, na época, conhecimento das histórias de vida dos muitos cientistas que proliferaram em nossos livros e apostilas. É o caso de Lavoisier.

Ele, com apenas 50 anos, morreu guilhotinado em 1794, contribuindo com a sua para o enorme rol de cabeças que rolaram depois da queda da Bastilha, em 1789.

Um dos seus acusadores foi o jornalista Jean-Paul Marat (ah, esses jornalistas!), que, segundo consta, o fez como vingança por Lavoisier ter se recusado a publicar pela Academia Francesa um artigo de Marat sobre a natureza do fogo.

Sobre a execução de Lavoisier, o famoso matemático (tinha que ter matemática!) Joseph-Louis Lagrange comentou: “Só um minuto para cortar a cabeça, e talvez em cem anos não nos dêem outra igual”. Realmente, Lavoisier foi “uma grande cabeça”, eleito com apenas 23 anos para a Academia de Ciências Francesa.

Todavia, o que deve ter sido decisivo para a sua execução foi o fato de ele ter sido um membro proeminente da instituição “Ferme Générale”, uma espécie de empresa terceirizada para a cobrança de impostos e na qual grassava a corrupção. Não muito diferente do que acontece em muitas instituições financeiras hoje em dia, principalmente em nosso desguilhotinado país.

Além disso, pesou o fato de ele ter ascendido ao maior cargo da instituição em decorrência de seu casamento, aos 29 anos, com Anne-Marie, filha do sócio majoritário da “Ferme”, quando ela contava apenas 13 anos. Todavia, a despeito do que se possa inferir com a inevitável desconfiança de que se tratou de “golpe do baú”, eles formaram um casal que viveu em boa harmonia. Ela chegou até a aprender inglês para ajudá-lo na tradução das novidades da Real Academia Britânica.

Lavoisier ficou conhecido como o pai da Química Moderna. Foi ele quem determinou a importância fundamental da massa da matéria com a famosa ‘lei da conservação das massas‘. Foi o precursor na nomenclatura das substâncias químicas e descobriu a composição da água, tida anteriormente como substância simples. A partir da publicação do ‘Tratado Elementar da Química‘, em 1789, até o dia de sua morte, ele também se dedicou ao estudo da Fisiologia, realizando, entre outras, pesquisas relativas à respiração e à transpiração.

A despeito de eventuais falhas de caráter, Lavoisier acabou tendo a importância para a química que Newton e Leibniz tiveram para a matemática.

Adalberto Nascimento é engenheiro - (dal@globo.com) - e escreve a cada duas semanas neste espaço.


Autor: Adalberto Nascimento

Texto retirado de: http://www.cruzeironet.com.br/run/3/235613.shl

2 - Edifício Lusitânia

Pessoal:


Lembrei-me ontem desse episódio.

Entrou certa vez na Casa um sujeito, aparentando estar bêbado.

Depois viemos a conjecturar que poderia ser algum agente do DOPS espionando a gente.

O "bêbado" fazia perguntas como se estivesse procurando uma pessoa da Casa que ele conhecia mas não se lembrava do nome.


Nas frases, ele, hábilmente, deixava hiatos, que nós, a princípio, inocentemente, completávamos, e ele ia sustentando a conversa, aparentando estar na Casa com conhecimento de causa, e a bebedeira era a desculpa para a "falta de memória"..

Até que, estando no elevador com vários de nós, ele construíu a seguinte frase:

-Esse aqui é o edifício... hmmm... o edifício...

-Edifício Lusitânia! Exclamou o Dal, de bate-pronto, olhando-o com aqueles "olhinhos infantis, como os olhos de um bandido", cuja malícia o "bêbado" não captou.

-Isso mesmo! Edifício Lusitânia! Caiu feito um pato o suposto agente...

-Lusitânia coisa nenhuma, seu fdp! Dissemos. O elevador já estava no térreo, e fomos conduzindo a peça para fora da Casa.

Ele perdeu completamente o jeito de bêbado, olhou para o Dal com expressão do mais puro ódio e disse:

-Espertinho, hem?

E deu no pé.

Quem se lembra das pessoas que estavam no elevador? Dal, o herói do "causo", ajude!

Abraços,


Autor: Tango 18/02/2004

Texto retirado de: http://www.cadpo.eng.br

3 - Pesadelos Politécnicos

Há mais de uma década participei de um jantar com politécnicos sorocabanos. É claro que foi um jantar caipira. Éramos nove ao todo. A maioria era mais idosa do que eu e o Moko - com pelos menos uns dez anos a mais. Tanto é que alguns daqueles comensais, infelizmente, já se foram.

Num dado momento daquele encontro, já sob o efeito de alguns tantos copos de cerveja, perguntei, meio que mineiramente e na moita, se alguém tinha sonhos recorrentes relacionados com o tempo da Escola.

A maioria respondeu que sim e, em seguida, vieram as descrições dos mais estranhos tipos de sonhos... Na realidade, pesadelos.

Meu questionamento decorreu de que na noite anterior eu havia tido um mau sonho com a Escola e, com as respostas, acabei descobrindo, até para meu alívio, que não era o único psicótico de plantão.

Isso aconteceu em 1993. A partir de então os meus sonhos politécnicos, ou melhor, pesadelos, ficaram menos recorrentes, mas não foram exterminados. De vez em quando ainda sonho que estou com uma dependência, que fiquei por falta numa dada matéria, ou, o que é mais terrível, que estou numa prova cabeluda fazendo a Escola pela segunda vez.

As respostas naquele jantar, em meio a gargalhadas etílicas, não foram suficientes para exorcizar meus demônios noturnos. Por causa disso é que nas reuniões que tivemos da Cadopo fiz aquela mesma pergunta em diversas rodinhas de papo, e a maioria dos cadopolitanos também demonstrou padecer desse trauma.

Na reunião do ano passado, um dos nossos amigos, que eu julgava imune a essas angústias, me contou que durante muito tempo dormiu com a carteirinha do CREA na cabeceira da cama para, ao acordar de um pesadelo, ter a confirmação de que já era diplomado.

Discutindo com amigos na reunião deste ano, chegamos à conclusão de que isso acontece mais freqüentemente com os alunos que, como eu, levaram a escola "no tapa". Os bons alunos - caso do Alemão -, nunca tiveram pesadelo algum.

Somado à displicência escolar, como bem conjecturaram o Alfredo, Malavolta e Calvito, o fato de sermos adolescentes interioranos, com dificuldades financeiras numa cidade massacrante, professores insensíveis e vida sexual mal resolvida em época efervescente de nossa juventude foram marcantes para a nossa insegurança. Daí o desleixo, como uma espécie de fuga.

Como compensação a essas adversidades, sobrava-nos a solidariedade de iguais - a dos "psicos". Daí a importância da Casa em nossas vidas: era o porto dos que estavam no mesmo barco.

E nesse barco, espero, navegaremos juntos até o fim.


Autor: Adalberto Nascimento

Texto retirado de: http://www.cadpo.eng.br

4 - Bar do Ivo

Meus Amigos

Muitos de nós já falaram e escreveram sobre muita coisa daquilo que aconteceu na nossa época da Casa do Politécnico. Em verdade, a Casa pode ser considerada como o nosso lugar geométrico, ou seja, o lugar geométrico daqueles que tiveram a oportunidade de viver e conviver naquele pequeno mundo que tão grande importância teve na vida de cada um.

Personagens, situações, lugares, passagens engraçadas, festas, jogos, etc, representam aquele agradável conjunto de lembranças que, quase diariamente, nos fazem remeter aos nossos anos dourados.

Este tal de nosso site ou e-group como queiram, é uma verdadeira Casa II. Só que agora os outrora garotos, travestidos de respeitáveis senhores continuam aí pelo espaço, nas suas andanças pela vida, se encontrando e desencontrando de vez em quando, porém sem nunca esquecer da nossa verdadeira essência.

Nesse filme sobre a nossa existência, não poderia deixar de faltar uma parte, algumas tomadas de cena, enfocando um dos lugares que muito encarnou a alma politécnica e que para vários colegas mais antigos foi uma espécie de filial da Casa - o "Bar do Ivo".

Para a nossa geração, provavelmente, o Bar do Ivo não foi tão frequentado como o foi pelos nossos antecessores, que estudaram nos anos 50 e meio de 60. Não sei se o pessoal mais novo chegou a conhecer, mas o Bar do Ivo ficava na própria Rua 3 Rios, na outra esquina além do Bar do Portuga, na direção da Salada Record que está lá até hoje.

Muito mais que um bar, lanchonete ou restaurante, o Bar do Ivo foi um reduto politécnico. Ao término das provas de final de ano e mais que isso, naquele momento maior, quando a turma concluia a Escola, todos comemoravam aqueles feitos com a famosa cervejada no Bar do Ivo.

Naquele ambiente simples vía-se muitas fotos nas paredes e prateleiras de grandes comemorações dos nossos predecessores, as quais eram guardadas e mostradas com orgulho pelos donos.

Vou até pedir socorro aos colegas mais antigos que estejam no ar, para relembrar e clarear os nomes dos principais personagens que tocavam o Bar do Ivo. A começar pelo próprio Ivo que ficava sempre no balcão ao lado do outro sócio ou irmão que não lembro direito do nome (seria Fótios). Além destes tinha aquele fantástico garçon que atendia as mesas(nome??) e que brigava constantemente com a cozinheira. Eram todos iuguslavos e parentes entre si, com aquele sotaque carregado.

Quando cheguei na Casa fui lá levado por alguns colegas da velha guarda, onde pude desde logo aprender as manhas do Bar. Se a gente pedisse uma porção inteira qualquer, vinha comida demais. Então, o jeito era pedir meia porção. Por isso pedíamos tudo meio: meio arroz, meio feijão, meia salada, meio purê, meio peixe, etc. No final da refeição a gente soltava aquela infalível, inesgotável e repetida tirada que os antigos ensinaram: - Me dá meia conta! E o garçon, cansado de ouvir sempre a mesma coisa, levava na esportiva.

No meu caso, quando ia no balcão pagar, o Ivo fazia a conta e eu sempre fazia um comentário reclamativo qualquer. Porquê tão caro? É um assalto! Somou a data? Está com raiva da gente? O Ivo, então, largava do lápis ou caneta, me dava um puxão na barba pelo queixo e exclamava sorrindo: - Fica queto, barbudínio! Toda semana era isso. O Ivo era uma grande figura humana e um sãopaulino fanático.

Por essas boas recordações, quando recebí um convite, há uns 13/14 anos atrás, da Associação dos Antigos Alunos(AAAP) para uma homenagem a ser feita ao pessoal do Bar do Ivo, no Instituto de Engenharia, achei que devia e resolvi comparecer.

Foi um belo momento de uma justa homenagem. O Ivo já tinha morrido, bem como o garçon. Vieram o sócio, muito velhinho e aparentando não estar muito consciente e a cozinheira, esta sim, inteira, como se diz. Receberam além da homenagem em si, uma certa importância em dinheiro, pois parece que a situação econômica dêles estava complicada. Foi, sem dúvida, uma bonita atitude da AAAP.

No evento, compareceram cerca de 10/15 colegas da geração mais antiga e aí pude entender as verdadeiras razões da homenagem. Tratou-se, além da pura lembrança, de um reconhecimento pelo que os donos do Bar do Ivo haviam dedicado aos politécnicos em geral, muitos deles da Casa.

O pessoal do Bar do Ivo foi um pai para muitos colegas. Por isso podem e devem ser considerados como uns beneméritos e benfeitores politécnicos. Não raras vezes os moradores e outros estudantes ficavam sem a devida "verba" proveniente dos pais e família, geralmente do interior.

O Bar do Ivo era o pôrto seguro a ser procurado nessas horas de dificuldade, uma vez que "pindurava" as contas de alimentação até que chegassem os recursos e, em vários casos chegava mesmo a emprestar dinheiro para a subsistência de muitos. Sempre é bom lembrar que, antigamente, não se tinha as mesmas facilidades de transferência de dinheiro como hoje, contas bancárias, cartões de crédito e tudo o mais.

Naquele dia pude sentir que todos nós temos que agradecer a tantos e tantos que, cada um à sua maneira, nos ajudaram a construir o pouco ou o muito, tanto faz, que somos ou temos.

Sintetizando, "muito devemos a muitos". E aquela turma do Bar do Ivo, provavelmente ninguém mais presente entre nós, certamente, tem um lugar garantido na nossa história.


Auotr: Calvito 8/11/2004

Texto retirado de: http://www.cadpo.eng.br

5 - A verdadeira história do Moita

O MOITA


1.Introdução

Quando fui morar na Casa em 1967, havia um desenho que sempre aparecia em vários lugares, na maioria das vezes em pichações, e que era mais ou menos assim:


Moita alfredo

O Moita, por Alfredo


Tratava-se do Moita, figura indesejável que entre seus atributos vivia escondida, nunca se apresentava e estava sempre pronta para trair, provocar constrangimentos e cometer atos considerados inaceitáveis. Era uma forma de encarnação do Demônio, manifestada onde todos dividiam as suas coisas, alegrias, aflições, etc.

Pessoas que não eram conhecidas de ninguém sempre apareciam e eram acolhidas nos quartos, como na época de férias, quando vinham estudantes do Brasil inteiro e também do exterior para passear ou estagiar em São Paulo. Muitos moradores (a maioria) levavam uma vida bem simples, com dinheiro só para a comida mais acessível, lavar a roupa, pagar a irrisória contribuição mensal e tomar condução. Assim, a presença de tal criatura no ambiente sempre provocava muita confusão e era repelida. Mas, como todas as aparições demoníacas, somente era detectada após algum tempo e, devido à grande complacência e desorganização da moçada, levava mais tempo ainda para ser exorcizada.


2.A chegada

Lá pelo fim da década de 60, começou a existir certo interesse pelo Carnaval da Bahia. Essa moda foi contaminando os estudantes universitários, que davam um jeito de viajar para lá, muitas vezes de carona…

Assim foi que uns colegas da Poli (e outros/as), Aderval e Tomé (meus amigos?), tinham estado em Salvador e lá ficado hospedados em uma Casa do Estudante, onde fizeram muitas novas amizades durante o Carnaval. Ao voltarem para São Paulo, foram avisados que iriam ter a alegria de receber a visita de um dos seus novos amigos, com o qual tinham alegremente convivido durante a passagem por Salvador. O pinta era um tal Paulo Roberto, ilustre estudante de medicina no Rio de Janeiro!

Após discutirem sobre a inesperada e incômoda visita, não tendo encontrado solução para recebê-lo em suas casas, pediram-me que ajeitasse as coisas para que ele pudesse ficar na Casa do Politécnico.

Lá fui eu. Conversei com as autoridades de plantão, expliquei que o cara ficaria no meu quarto e tudo mais… Como todo mundo era bonzinho, foi assim que no dia seguinte ao pedido, lá pela hora do jantar, recebi com todas as honras o cidadão e sua mala no estacionamento, defronte à quadra de futebol de salão. Era moreno, baixo e forte, meio desengonçado e parecia mais ser nordestino ou baiano do que carioca.Veio acompanhando-o o Tomé, com seu carro, o qual não quis chegar até a Casa.


3. Surpresas iniciais

Subimos para o 62, fomos jantar e voltamos. Providenciei um colchão e fiz sala, enquanto o Paulo Roberto mexia na sua mala.

Conversávamos. Pela prosa, comecei a achar estranho que o cara fosse estudante de medicina. Toda vez que lhe fazia uma pergunta relacionada à área ou à sua vida de estudante, recebia uma resposta não muito clara ou até evasiva. De repente, fui surpreendido. Êle tirou da mala duas fotos e disse: - Dá uma olhada.

Peguei as fotos e olhei uma delas.

- Este aqui sou eu !

- Você?

- Sim, este aqui (apontando com o dedo). São de quando eu era paraquedista.

O diálogo repetiu-se quando olhei a outra foto.

Tive que engolir o sapo. Eram fotos de pessoas saltando de paraquedas e tiradas por um dos paraquedistas. Não era possível distinguir o rosto de ninguém!

Percebendo o clima de desconfiança, o "novo amigo" não demorou a emendar, num carioquês refinado (os cariocas que me perdoem):

- Amanhã almoçarei na casa de Helen e jantarei na casa de Aderval.

- Depois de amanhã, estarei com Tomé e Ana…

Foi assim que comecei a cair do burro. Algumas horas depois da recepção, já estava mordendo os dentes de raiva de mim mesmo e dos colegas meus amigos que tinham pedido pelo traste. Mas não sabia como sair da enrascada.


4. Desavenças

Nos dias seguintes, só me encontrava com o Moita após as onze da noite. Quando chegava, dizia que tinha almoçado com a Ana, Tomé, Regina e jantado com outros tantos. Já tinha feito amizade com alguns moradores da Casa. Curiosamente, quando retornava, entrava no quarto sempre sem camisa e de rosto e peito lavados e ainda pingando!

Num desses dias, resolvi olhar minhas roupas no guarda-roupa e percebi que faltava uma blusa vermelha de gola, daquelas que cobriam o pescoço. No dia seguinte de manhã, notei que a blusa estava dobradinha e guardada no lugar novamente…

Aguardei a noite chegar e, lá pelo horário da volta, peguei o gatuno com a boca na botija.

- Não quero que você continue dormindo no meu quarto! Se quiser, a sua mala poderá ficar aqui, mas arranje outro lugar para ficar (grande êrro)!

O Moita aceitou prontamente o acordo, pegou colchões e lençóis que eu lhe emprestei e mudou-se para um canto do salão de festas. E lá ficou por algumas semanas, durante as quais foi ampliando o seu círculo de amizades e aprontando outras. Algumas manhãs, com uma pasta sob os braços, tomava o ônibus 942 que levava o pessoal da Casa para a CU. Uma vez ou outra era visto na Poli, fazendo uma visitinha.


5. Eureka!

Durante o período em que esteve entre nós, às vezes era visto batendo alguma coisa na máquina de escrever que havia na Casa. Nunca permitia que alguém tomasse conhecimento do assunto.

Uma certa noite, eu estava no quarto quando entrou o Paulão (Paulo Gilberto Iervolino), que morava comigo. Chegou esbaforido, com uma pasta de fichário e um blusão azul da Poli na mão e me perguntou:

- Isto aqui não é meu? Achei sobre a pia do banheiro!

Respondi:

- É seu sim, tenho certeza! Vamos ver o que tem dentro da pasta!

Abrimos e encontramos vários certificados de conclusão de curso primário e de ginásio borrados com algo como água sanitária, na tentativa de apagar os nomes que estavam gravados. Alguns, apesar de borrados, estavam preenchidos com frases que não faziam qualquer sentido. Parecia um treinamento para falsificação de documentos. E era, pois havia também um folheto com instruções para o concurso de ingresso na Polícia Militar. Este devia ser o objetivo do traste, que de estudante não tinha nada.

De repente, enquanto examinávamos o material, notamos que alguém nos espreitava da porta. Era o Moita, que tratou de descer correndo pela escadaria afora. Fomos atrás, mas ele desapareceu num zás. Depois, ficamos sabendo que na fuga tinha entrado em um quarto e ainda tomado dinheiro emprestado de um dos nossos colegas.


6.Epílogo

Voltamos ao quarto e resolvemos abrir a mala e devassar os pertences do pilantra. Havia algumas roupas, um título de eleitor e duas cartas, além das já mencionadas fotografias. Inspecionamos o Título de Eleitor e encontramos a seguinte identificação:


Nome: G. M. Crac


Cidade/Estado: Rio de Janeiro


Profissão: Motorista de Taxi.


Abrimos as cartas. Eram relatos apaixonados de uma namorada que êle tinha conhecido no Carnaval de Salvador. Uma delas dizia o seguinte.


" A nossa viagem de volta da Bahia ao Rio foi inesquecível.


Sabe, Paulo Roberto, que quando cheguei em Curitiba dei pela falta do colar de ouro que trazia na minha bolsa. Acho que me roubaram quando descemos na Estação Rodoviária do Rio."


E no final:


"Te amo muito. Aguardo anciosa a sua visita a Curitiba.

Um beijo,

Sílvia Maria"


Depois desta, o Moita-Gerdal sumiu por uma semana. Então apareceu e ligou-me da portaria, pelo interfone, pedindo que eu lhe devolvesse a sua mala e algumas camisas que tinha deixado para lavar.

Peguei suas coisas e desci, sozinho, com um certo medo.

Ao encontrá-lo no térreo, disse a êle:

- Queremos que você leve suas coisas e desapareça! O pessoal está querendo te pegar!.

Ele então foi embora (sem deixar de agradecer…) e, do que sei, nunca mais apareceu na Casa. No entanto, alguns conhecidos, bem depois, me contaram que certa vez tinham encontrado na rua com um estudante da Poli que dizia ter falta de dinheiro e pedia ajuda para sustentar-se em São Paulo. Todos relataram que o suspeito tinha sempre uma pasta com o logotipo da Poli e desenho da " Minerva" sob o braço e que vestia um daqueles blusões azuis…


FIM


Nota: Exceto Gerdal e os Paulos, os demais nomes são fictícios.


Autor: Alfredo - Abril/2004


Texto retirado de: http://www.cadpo.eng.br

6 -

Texto retirado de: http://www.cadpo.eng.br

7 -

Texto retirado de: http://www.cadpo.eng.br

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