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Cultural Israel

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Projeto de Pesquisa: História Cultural de Israel no Antigo Oriente Médio Coordenação: Prof. Dr. Júlio Paulo Tavares Zabatiero


Justificativa

1. O campo acadêmico da História de Israel, iniciado no séc. XVIII com o estabelecimento dos fundamentos da crítica documental da Bíblia (a partir dos estudos pioneiros de H. B. Witter e J. Astruc)1, tem privilegiado três grandes áreas de estudo: (1) a história nacional (ou política, ou institucional), que constitui a maioria dos trabalhos publicados, tanto em artigos e ensaios, quanto em manuais ou compêndios de história – normalmente intitulados “História de Israel” ou, na linha de Hayes e Miller, “História de Israel e Judá”. O modelo da história nacional é o mais antigo dos modelos de pesquisa histórica aplicados ao antigo Israel e possui as características típicas da historiografia de cunho rankeano: (a) conceito de unidade nacional subjazendo à pesquisa; (b) concentração das perguntas na dimensão política da vida social e histórica; (c) pressuposição de objetividade a partir do uso de método derivado da epistême das ciências naturais; (d) concentração na crítica documental e análise filológica de textos, não sendo incomum a atribuição de fidedignidade, ou não, às fontes primárias – sendo a fidedignidade entendida como o maior grau de exatidão possível na função referencial do texto ou das demais fontes; (2) a história da religião de Israel, comumente uma especialização da história nacional que, usando a mesma metodologia básica, se debruça sobre a religião israelita enquanto tal, exemplificada de modo brilhante em seus primórdios por J. Wellhausen em seu Prolegomena. As histórias da religião de Israel não inovaram em termos metodológicos propriamente ditos, acrescentando aos princípios da história nacional as questões da pesquisa mitológica e/ou das religiões comparadas e, mais recentemente, questões da sociologia das religiões (e.g. a história de Rainer Albertz); (3) a história social de Israel, inaugurada pela pesquisa de Max Weber (Das Antike Judentum, no início do séc. XX) e retomada especialmente a partir das pesquisas de G. Mendenhall sobre as origens de Israel (em artigo de 1962). Do ponto de vista do método, é no campo da história social que as principais tentativas de inovação têm se dado, mediante a busca de modelos derivados das ciências sociais para a reconstrução histórica. É também a este campo que pertence a maioria das pesquisas históricas latino-americanas.

2. Esta brevíssima descrição do campo acadêmico da história de Israel tem como objetivo fundamental apenas destacar a ausência da história cultural, enquanto um modelo historiográfico articulado na pesquisa do antigo Israel. O estudo mais próximo de uma história cultural de Israel é a obra de R. de Vaux, Instituições do Antigo Israel, embora o uso de conceitos antropológicos não seja incomum em obras de história social de Israel, ou mesmo em obras recentes na perspectiva da história nacional (e.g., as pesquisas sobre a identidade do antigo Israel por estudiosos como G. Ahlstrom, N. Lemche, I. Finkelstein e D. Edelman, entre outros). A criação de um projeto de pesquisa sobre a história cultural de Israel não se justifica por possíveis falhas dos demais campos, mas: (1) pelas possibilidades complementares de avanço dos nossos conhecimentos sobre o antigo Israel que este novo modelo oferece, tanto do ponto de vista dos conteúdos da história israelita, quanto do ponto de vista da metodologia historiográfica, mediante a incorporação de conceitos heurísticos como etnicidade, identidade, imaginário, representações, circularidade cultural, derivados do amplo campo da “história cultural”; e (2) pela existência em número crescente de pesquisas sobre a história de Israel que, de uma forma ou de outra, pertencem ao campo mais amplo dos estudos culturais – e.g., a pesquisa de gênero, estudos sobre a identidade e presença africana em Israel (nestes dois casos, há núcleos de pesquisa em funcionamento na EST), estudos sobre as imagens e representações da divindade, estudos sobre o corpo e o simbolismo. As novas perguntas e perspectivas desse leque diverso de pesquisas já começam a exigir uma reflexão mais abrangente sobre a metodologia histórica a ser utilizada, bem como sobre a organização temática e a abrangência de manuais de história de Israel.


Objetivos

1. Formular uma metodologia de história cultural, a partir dos principais teóricos do campo, aplicada ao estudo do Antigo Israel;

2. Escrever e publicar, em dois anos, um compêndio de História de Israel em perspectiva cultural apropriado para uso em classes de graduação e pós;

3. Publicar uma revista virtual, com números quadrimestrais, para divulgação dos resultados parciais do Projeto;

4. Envolver estudantes de teologia no projeto, incluindo graduandos em projetos de iniciação científica., com vista à formação de um Núcleo de Pesquisa em História Cultural de Israel.


Referencial Teórico de Base

O estudo acadêmico da história de Israel não pode ser confundido com a interpretação da Palavra de Deus presente na Bíblia Hebraica. A visão canônica da história de Israel não foi construída de forma científica, mas como expressão da identidade e da fé do povo de Deus. Ao constatar isto, não se afirma, porém, que essa visão não tenha valor para uma reconstrução científica, ao contrário! Distinguir a visão canônica da visão científica é essencial para que se possa, no estudo historiográfico, tirar o melhor proveito possível da Bíblia como fonte para a reconstrução da história israelita. Os escritos bíblicos possuem um valor documental incomparável para a pesquisa historiográfica do antigo Israel, na medida em que são as principais e mais antigas representações textuais daquela história. Recusar valor documental à Escritura é adotar uma postura positivista em relação ao método historiográfico e abrir mão de uma fonte insubstituível para a escrita da história de Israel. Na perspectiva do historiador J. Rüsen, podemos dizer que os textos do Antigo Testamento são uma forma pragmática de história, configurada como tradição: A história emerge de tradições, nas quais os limites da relação do passado com o presente são ultrapassados: o passado torna-se consciente enquanto tal, adquire uma qualidade temporal em seu conteúdo experiencial, fornecendo, assim, com essa nova qualidade temporal, novos elementos de compreensão da dimensão temporal da vida humana prática. (RÜSEN, J. Razão Histórica. Teoria da história: os fundamentos da ciência histórica. Brasília: Editora UnB, 2001, p. 83)

Não se pode, por isso, adotar a visão canônica da história israelita como uma reconstrução científica, pois esta não era a preocupação nem o objetivo dos autores e autoras dos textos bíblicos. Sua atividade pode ser melhor descrita como reflexão sobre a identidade e a fé do povo de Deus ao longo da sua história, ao invés de tentativa de reprodução exata de acontecimentos dessa história. É exatamente por isto que a Bíblia Hebraica é fonte incomparável para a pesquisa historiográfica2 – ela oferece os testemunhos escritos mais antigos dos processos e dos conflitos de formação da identidade de Israel como um povo que vivenciou sua fé em meio às vicissitudes da vida no Antigo Oriente Próximo. Praticar a fé e construir identidade são parte integrante da consciência histórica e suas representações escritas podem ser adequadamente usadas para a reconstrução científica da história de um povo. Quais são os passos necessários para irmos da consciência pragmática à científica da história? Ainda segundo Rüsen, são três: 1. Metodizar a relação com a experiência, através da abstração dos significados, normas e valores presentes nas narrativas pragmáticas; e através do recurso crítico às fontes, que: (a) transforma a tradição, artificialmente, em vestígios; e (b) torna o conteúdo empírico das histórias controlável, ampliável e garantível pela experiência; 2. Metodizar a relação com as normas, através da reflexão crítica sobre o referencial historiográfico; mediante a colocação dos fatos históricos em uma perspectiva adequada, ao compreender que os fatos do passado somente podem ser trazidos ao presente mediante uma ordenação de perspectivas, que são enraizadas na vida prática contemporânea, e colocadas às claras no texto historiográfico; e 3. Metodizar a relação com as idéias, mediante um raciocínio que opera com racionalidade narrativa, ou seja, mediante uma teorização construtiva: obedecer a uma regra que imponha a(o) historiador/a explicitar e fundamentar os critérios (idéias) que determinam a instituição do sentido, as seleções dos fatos e significados que se fazem com eles e a síntese entre ambos. A teorização visa estabilizar a identidade de seus destinatários ao longo das mudanças no tempo e a ampliação dos seus horizontes.3 Estudar academicamente a história de Israel, portanto, é uma atividade de pesquisa que terá na Bíblia Hebraica a sua fonte principal, além dos demais textos dos povos do Antigo Oriente Próximo e dos achados arqueológicos relativos à região. Seu objetivo será a reconstrução mais precisa possível da história do povo israelita, com foco primário no processo sócio-cultural de construção de sua identidade. A perspectiva que utilizaremos de modo privilegiado é a da história sócio-cultural, especialmente conforme discutida e praticada por Edward P. Thompson, Roger Chartier e Carlo Ginzburg. Conquanto a teoria e a perspectiva adotadas sejam relativamente recentes e tenham tido pouco utilização na história da disciplina acadêmica da história de Israel, isto não dispensa o recurso às histórias de Israel já elaboradas ao longo dos três últimos séculos. Tendo em vista que realizamos este estudo a partir da vivência da fé cristã e da formação teológica para o cumprimento da missão do povo de Deus, devemos tomar redobrado cuidado para não confundirmos o estudo da história de Israel com o da teologia bíblica, praticando consistentemente o terceiro passo da passagem da visão pragmática à científica da história, segundo Rüsen. A reconstrução acadêmica da história do antigo Israel é uma atividade preparatória para o estudo da exegese e da teologia bíblica e deve ser realizada com a maior objetividade historiográfica possível, como o estudo histórico de qualquer outro objeto de pesquisa. Se cremos que Deus age na vida humana e na sua história, quanto mais profundamente conhecermos a história do povo de Deus no passado tanto melhor estaremos habilitados para o exercício do discernimento espiritual no presente. Para nós continua válido o conselho de Paulo aos coríntios: “estas coisas lhes sobrevieram como exemplos, e foram escritas para advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado” (I Co 10,11). Segundo Roger Chartier, “a história cultural, tal como a entendemos, tem por principal objecto identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler” (CHARTIER, R. A história cultural entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 1990, p. 16s.). A relevância desta compreensão da história cultural para o estudo da história de Israel é cristalina: estaremos nos ocupando das diferentes maneiras mediante as quais o povo de Deus, no passado, construiu, pensou e nos deu a ler a sua realidade social através, primária, mas não exclusivamente, dos textos bíblicos. A Escritura hebraica é um arquivo privilegiado de construções da realidade social do povo de Deus, em diferentes momentos da sua história, provindos de diferentes lugares, e que nos são dados a ler graças ao processo de canonização desses textos. Ora, àqueles historiadores ditos minimalistas, que consideram de praticamente nenhum valor historiográfico as Escrituras de Israel; bem como aos historiadores positivistas, ocupados exclusivamente com os fatos, vale destacar que “uma das contribuições reconhecidas de Foucault, adotada por vários dos novos historiadores culturais, encontra-se na importância que ele atribuiu à linguagem/discurso enquanto meio de apreender as transformações” (O’BRIEN, P. “A história da cultura de Michel Foucault”, in HUNT, L. (org.) A Nova História Cultural. São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 58s.). Essas construções discursivas da realidade social, que constituem a Escritura Hebraica, servirão como fonte privilegiada para a pesquisa histórica. Qual é a tarefa de uma história sócio-cultural? Segundo Roger Chartier: Por um lado é preciso pensá-la como a análise do trabalho de representação, isto é, das classificações e das exclusões que constituem, na sua diferença radical, as configurações sociais e conceptuais próprias de um tempo ou de um espaço. [...] São estas demarcações, e os esquemas que as modelam, que constituem o objecto de uma história cultural levada a repensar completamente a relação tradicionalmente postulada entre o social, identificado com um real bem real, existindo por si próprio, e as representações, supostas como reflectindo-o ou dele se desviando. Por outro lado, esta história deve ser entendida como o estudo dos processos com os quais se constrói um sentido. Rompendo com a antiga ideia que dotava os textos e as obras de um sentido intrínseco, absoluto, único – o qual a crítica tinha a obrigação de identificar –, dirige-se às práticas que, pluralmente, contraditoriamente, dão significado ao mundo. Daí a caracterização das práticas discursivas como produtoras de ordenamento de afirmação de distâncias, de divisões; daí o reconhecimento das práticas de apropriação cultural como formas diferenciadas de interpretação. (CHARTIER, R. op. cit., p. 27s)

Reconstruir criticamente o sentido da construção, a difusão e a apropriação dos discursos que estabilizaram as representações que, ao longo do tempo e em diferentes lugares sociais, os israelitas fizeram de sua própria história é a tarefa da história cultural. A esta descrição da tarefa feita por Chartier, devemos acrescentar dois elementos, o primeiro proveniente de Ginzburg: a reconstrução dos processos de circularidade cultural (ou seja, os diálogos entre representações e discursos originários de diferentes situações culturais e sócio-políticas), mediante os quais as representações se transformaram em discursos históricos; o segundo, de E. Thompson: uma visão conflitiva do processo sócio-econômico, que pode ser resumida conceitualmente através do conceito de classe social: “a classe acontece quando alguns homens (sic), como resultado de experiências comuns (herdadas ou partilhadas), sentem e articulam a identidade de seus interesses entre si e contra outros homens (sic) cujos interesses diferem (e geralmente se opõem) dos seus. A experiência de classe é determinada, em grande medida, pelas relações de produção em que os homens (sic) nasceram – ou entraram involuntariamente. A consciência de classe é a forma como essas experiências são tratadas em termos culturais: encarnadas em tradições, sistemas de valores, idéias e formas institucionais” (THOMPSON, E. B. A formação da classe operária inglesa, I, 1987, p. 10).


Cronograma Geral

Segundo Semestre de 2.005 – (1) elaboração de capítulo introdutório com a apresentação do referencial teórico, incluindo os aspectos metodológicos da pesquisa da História Cultural de Israel; (2) aplicação do método no estudo de um dos períodos da História de Israel, no caso, o período da dominação persa*;

Primeiro Semestre de 2.006 – aplicação do método no estudo de um dos períodos da História de Israel, no caso, a história cultural de Israel no período da dominação helênica, anteriormente à revolta dos macabeus (c. 330-167 a. C);

  • Justifica-se o início da redação dos resultados da pesquisa pelo período persa na medida em que a maioria dos livros da Escritura Hebraica tiveram sua redação final nesse período. Para uma história cultural é fundamental avaliar as fontes escritas em sua “forma final”, a fim de reconstruir os critérios mediante os quais essas fontes nos permitem reconstruir o processo de produção dos textos bíblicos, na busca das suas formas escritas preliminares à redação final.

Segundo Semestre de 2.006 – aplicação do método no estudo de um dos períodos da História de Israel, no caso, a história cultural de Israel desde suas origens até o final da independência do estado de Judá sob os babilônios;

Primeiro Semestre de 2007 – Revisão do material elaborado e editoração final do relatório, com vistas à publicação de um Manual de História Cultural de Israel no período do Antigo Testamento.


Bibliografia

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